Precisamos fazer a pergunta certa aos jogos
Poucos campos inspiraram tanto a educação nas últimas décadas quanto os jogos.
À medida que a gamificação ganhou espaço em escolas, universidades e organizações, uma pergunta passou a orientar boa parte das iniciativas nessa área:
Quais elementos dos jogos podemos incorporar à aprendizagem?
Foi uma pergunta importante.
Graças a ela, professores passaram a experimentar sistemas de pontuação, medalhas, rankings, desafios, níveis e diferentes formas de feedback.
Essas experiências ampliaram o repertório de práticas pedagógicas e estimularam uma nova forma de pensar o engajamento.
Mas, olhando para esse percurso, é hora de fazer outra pergunta.
E se a principal contribuição dos jogos para a educação nunca tivesse sido seus elementos mais visíveis?
É fácil copiar mecânicas, o difícil é compreender por que elas funcionam
Quando observamos um jogo pela primeira vez, nossa atenção costuma ser atraída por aquilo que é mais evidente.
Os pontos.
Os níveis.
As conquistas.
As recompensas.
Os desafios.
São elementos concretos, fáceis de identificar e relativamente simples de reproduzir em outros contextos.
E é por isso que têm se tornado o ponto de partida da maioria das iniciativas de gamificação.
O problema é que esses elementos, isoladamente, explicam muito pouco.
Pontos não criam envolvimento.
Medalhas não produzem aprendizagem.
Os rankings não sustentam o interesse durante meses.
Eles funcionam apenas quando fazem parte de uma experiência cuidadosamente planejada.
Copiar as mecânicas é relativamente simples.
Compreender a lógica que as conecta é muito mais desafiador.
O que torna um jogo memorável não é uma mecânica isolada
Pense em um jogo de que você goste.
É pouco provável que ele seja lembrado apenas porque possui pontos ou níveis.
Provavelmente ele permaneceu na memória por outro motivo.
Porque cada desafio parece fazer sentido.
Porque havia uma sensação constante de progresso.
Porque os obstáculos evoluíram junto com suas habilidades.
Porque o feedback ajudava a compreender o que fazer em seguida.
Porque cada conquista preparava o caminho para um desafio maior.
Em outras palavras, o que permanece não são as mecânicas.
É a experiência.
Os jogos não envolvem milhões de pessoas porque possuem determinados componentes.
Eles envolvem porque esses componentes foram organizados para produzir uma jornada significativa.
Jogos são excelentes arquitetos de experiências
A maior contribuição dos jogos está justamente no fato de eles não nos ensinam quais elementos utilizar, mas nos ensinarem como organizar esses elementos.
Nos bons jogos, quase nada acontece por acaso.
Os objetivos são claros.
Os desafios possuem uma progressão cuidadosa.
O feedback é frequente.
O jogador percebe sua evolução.
As decisões têm consequências.
As regras oferecem direção sem eliminar a autonomia.
Cada componente existe para fortalecer a experiência como um todo.
Essa lógica se aproxima muito mais da arquitetura do que da simples aplicação de técnicas.
O foco deixa de ser cada elemento individualmente.
Passa a ser o desenho das relações entre eles.
Uma inspiração para a educação
Quando transportamos essa reflexão para o ensino superior, uma mudança importante acontece.
Em vez de perguntar quais mecânicas devemos importar dos jogos, passamos a perguntar como eles conseguem sustentar o envolvimento das pessoas durante tanto tempo.
A resposta dificilmente será encontrada em uma lista de elementos.
Ela estará na forma como objetivos, desafios, feedback, autonomia, colaboração, progressão e significado são organizados para construir uma experiência coerente.
Essa mudança altera completamente a forma de compreender a gamificação.
Ela deixa de ser um conjunto de recursos motivacionais.
Passa a representar uma fonte de princípios para o desenho de experiências de aprendizagem.
Nesse contexto, jogos deixam de ser modelos a serem copiados.
Tornam-se referências para compreender como experiências complexas podem ser cuidadosamente projetadas.
Fazendo a pergunta certa
Ao invés de perguntar:
“Quais elementos vocês utilizam?”
Devíamos ter perguntado:
“Como vocês conseguem manter pessoas aprendendo, errando, tentando novamente e evoluindo durante tanto tempo?”
São perguntas muito diferentes.
A primeira produz listas de mecânicas.
A segunda produz princípios de projeto.
A primeira leva à reprodução de técnicas.
A segunda leva ao desenho de arquiteturas de aprendizagem.
Essa diferença explica por que algumas iniciativas de gamificação tiveram impacto limitado.
Elas reproduziram elementos sem reproduzir a lógica que lhes dava sentido.
O legado dos jogos não está nas mecânicas, está na forma de pensar a aprendizagem
Ao longo desta discussão, uma ideia aparece de forma recorrente.
Jogos não são apenas entretenimento.
São sistemas cuidadosamente projetados para promover envolvimento, desenvolvimento e progressão ao longo do tempo.
Essa é a sua maior contribuição para a educação.
Eles nos lembram que experiências significativas não surgem da soma de elementos interessantes.
Surgem da maneira como esses elementos são organizados, que é exatamente a mudança de perspectiva de que o ensino superior precisa.
Continuaremos criando metodologias.
Continuaremos incorporando tecnologias.
Continuaremos experimentando novas estratégias de ensino.
Mas nenhuma dessas iniciativas alcançará todo o seu potencial se continuarmos olhando para elas de forma isolada.
Os jogos nunca ensinaram a educação a usar pontos.
Ensinaram que a aprendizagem pode ser intencionalmente desenhada.
